ARTOC - A Puíta

                    Todos os amantes das Escolas de Samba conhecem o esforço feito por José Bispo - Jamelão, para ser chamado de intérprete e não puxador de samba-de-enredo.
                    Em conversa com meu amigo Walmir contei-lhe de minha vontade ser cuiqueiro. Ele com todo jeito me disse: Claudinei, que coisa feia! Não existe cuiqueiro. Você não encontra a palavra cuiqueiro no dicionário.
                    Fiquei intrigado com isto e passei a pesquisar. Grande foi meu espanto por ele estar certo. Não existe a palavra cuiqueiro no dicionário Aurélio (Aurélio é um dos dicionários mais usados). Lancei-me aos livros e passo a vocês TOCADORES DE CUÍCA o meu trabalho.

A PUÍTA

                    Ensina Alceu Maynard Araújo em sua obra Folclore Nacional, São Paulo, editora Melhoramentos - 1964 - V, que a puíta é um membranofônio. É um pau roliço, oco, de mais ou menos trinta centímetros de comprimento e quinze a vinte de diâmetro. Uma das bocas é recoberta por um couro. No centro deste amarra-se uma haste de madeira, bem lisa, de trinta centímetros de comprimento. A haste fica dentro e no centro do tubo. Na extremidade da haste, que está em contato com o couro, há uma "cabeça" e uma pequena escavação chamada "pescoço" feita para melhor fixar o amarrio que aperta o couro. Este de preferência é de cabrito. Antes de ser fixado ao tubo de madeira é molhado. Uma vez pregado, pôe-se a enxugar para que fique bem esticado. Assim obter-se-á som mais "limpo", isto é, menos rufenho.
                    Em geral o tocador apóia a puíta sob o braço esquerdo; quando não é assim, o puiteiro prende o instrumento entre os joelhos e, com um pano molhado ou a própria mão molhada, esfrega a haste tirando sons. De vez em quando, coloca uma das mãos sobre o couro, ou na  "mamica" (aquela bolinha que forma o couro amarrado na "cabeça" da haste), o que faz tirar vários sons que mais parecem grunhidos. Há puiteiros que não usam panos, somente a mão molhada e, desse modo, conseguem tirar do instrumento uma gama maior de sons.
                    Pensava-se que a puíta era de origem anglo-conguesa, porque foram os negros bantos que a trouxeram para o Brasil, porém Luis Câmara Cascudo em documentado estudo afirmou que os árabes é que a levaram aos pretos e estes a introduziram no Brasil. Atualmente a puíta é feita de pequeno barril. Na Espanha, no século XVII, seu "corpo" era de barro. Hoje, já temos encontrado a "carcassa" feita de lata e até de alumínio de antigo caldeirão sem fundo.
                    Cornélio Pires contou que foi com o aparecimento do rádio que a puíta passou a chamar-se cuíca. Foi um dos caipiras do rádio que deliberou chamá-la de cuíca para evitar qualquer deturpação possível com o vocábulo original daquele membrafônio. Por aí pode-se aquilatar como é grande grande a influência radiofônica, chegando mesmo a confundir até os folcloristas. Cuíca, conforme afirma Cornélio Pires é um ratão e jamais o nome do instrumento musical – Puíta. No fundo quem tem razão é Max Muller com sua famosa teoria da "moléstia verbal"...
                    Encontramos a puíta no Estado de São Paulo nas danças: Jongo de Cunha em Taubaté, São Pedro de Catuçaba, Lagoinha, Bananal, Areias e Silveiras, na Congada de Piracaia, Atibaia; no Batuque de Porto Feliz e Tatuí; no Samba Rural de Porto Feliz, Tatuí e Laranjal.
                    Ensinam Rossini Tavares de Lima e Julieta de Andrade em sua obra Escola de Folclore - Pesquisa de Cultura Espontânea, Brasil, 2ª edição, São Paulo: Escola de Folclore, 1983, pág. 186, que membranofone é um gênero instrumental que aparece no acompanhamento ou como solista. Os instrumentos membranofones fornecem o som obtido pela vibração de membranas estendidas: tambores de caixilho (adufe ou adufo, tamborim ou tamboril); tambores cilíndricos (caixa, surdo, zabumba, bumbo, tambu, caxambu, candongueiro); tambores cônicos (atabaques, nas dimensões grande, médio e pequeno: rum, rumbi e lé); tambores de barril (ilu, ingone ou engono, tambu e candongueiro de jongo, tambaque); e os tambores de fricção (cuíca ou puíta; há cuícas, sob denominação de onça, que não são tambores, mas idiofones de fricção, na forma de caixote). Ensinam, ainda, que os idiofones fornecem o som obtido pela vibração de todo o corpo instrumentoal: de percussão (gonguê ou conguê, agogô, adjá, triângulo, frigideira); de entrechoque (matraca, castanholas, arco e flecha, espadas, bastões); sacudidos (caxixi, angóia ou cestinha, ganzá, guaiá, maracá, pandeiro de pastoril e afochê).

                    Conclui-se, portanto, que não se configura desonra dizer que os mais notáveis tocadores de cuíca são verdadeiros puiteiros, pois, observa-se, contudo, na respeitável obra MEMÓRIA DO CARNAVAL, editado pela Oficina do Livro, Rio de Janeiro, em 1991 em parceria com a RIOTUR - EMPRESA DE TURISMO DO RIO DE JANEIRO S.A, na página 315,  em texto referente  às baterias, onde J. Muniz esclarece, entre outras coisas, que indispensável em toda roda de samba, a velha cuíca de barrica, foi igualmente aposentada, sendo substituída por cilindros metálicos, cintilantes, dourados ou prateados, onde os cuiqueiros arrancam sons dos mais variados e onde alguns se dão ao luxo de executar até solos musicais.
                    Como sugestão, porque não movimentar-nos para que a palavra cuiqueiro seja inserida em nosso dicionário vez que já incorporou em nossa língua?

Autor: Claudinei Catarino - S.P.

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